Marcello José Abbud constata que o sistema de reciclagem brasileiro funciona, em grande parte, porque existe uma categoria de trabalhadores que o poder público ainda não aprendeu a valorizar adequadamente. Os catadores de materiais recicláveis são responsáveis por recuperar entre 70% e 90% de todo o material que entra nas usinas de reciclagem do país, segundo estimativas do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis. Sem eles, o colapso seria imediato.
São aproximadamente 800 mil pessoas que trabalham na catação em todo o Brasil, a maior parte delas sem vínculo formal, sem proteção previdenciária e sem reconhecimento institucional proporcional à sua contribuição ambiental e econômica. A inclusão desses trabalhadores nas cadeias formais de reciclagem não é apenas uma pauta de direitos humanos: é uma condição para que qualquer política de gestão de resíduos funcione de forma sustentável.
Entender o papel social dos catadores e os modelos que têm dado certo na integração deles ao sistema formal é essencial para gestores públicos que buscam soluções reais. Continue lendo para ver o que separa as iniciativas que avançam das que ficam apenas no discurso.
Por que os catadores ainda vivem à margem do sistema que sustentam?
A contradição é evidente: os catadores prestam um serviço ambiental de alto valor, reduzem os custos municipais de disposição final e abastecem indústrias que dependem de matéria-prima reciclada, mas seguem operando em condições precárias, expostos a riscos de saúde e sujeitos à volatilidade dos preços pagos pelos atravessadores. Como observa o diretor da Ecodust Ambiental, Marcello José Abbud, essa situação persiste porque a cadeia de reciclagem foi historicamente organizada para extrair valor do trabalho do catador sem redistribuí-lo de forma justa.

A intermediação excessiva é um dos principais obstáculos. Entre o catador que recolhe o material nas ruas e a indústria que o processa, há uma série de agentes que capturam a maior parte da margem econômica. Cooperativas e associações formalizadas conseguem reduzir esse problema ao negociar diretamente com compradores de maior porte, mas a organização coletiva ainda é exceção, não regra, no universo da catação brasileira.
Como a integração formal muda a realidade dos catadores?
Experiências bem-sucedidas de integração de catadores em sistemas municipais de coleta seletiva mostram resultados consistentes em diversas frentes. De acordo com Marcello José Abbud, quando o poder público formaliza a parceria com cooperativas, os catadores passam a ter renda mais estável, acesso a equipamentos de proteção, cobertura previdenciária e, em muitos casos, ganhos superiores ao salário mínimo regional.
O modelo de coleta seletiva solidária, previsto na própria Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), estabelece que os municípios devem priorizar a contratação de cooperativas de catadores para a operação dos sistemas de coleta e triagem. Na prática, a implementação ainda é desigual, mas os municípios que avançaram nessa direção reduziram custos operacionais e ampliaram as taxas de desvio de resíduos dos aterros de forma expressiva.
Tecnologia e cooperativismo: caminhos que se complementam
A modernização da cadeia de reciclagem não precisa ser uma ameaça aos catadores, mas pode ser uma aliada, desde que o processo seja conduzido com inteligência e participação. Sob a perspectiva de Marcello José Abbud, a introdução de tecnologias de triagem, pesagem automatizada e rastreamento de materiais nas cooperativas aumenta a produtividade sem substituir o trabalhador humano, que permanece essencial nas etapas de identificação e segregação de materiais complexos.
Plataformas digitais de comercialização de recicláveis têm permitido que cooperativas acessem diretamente compradores industriais, eliminando intermediários e aumentando o preço recebido pelo material. Esse é um exemplo concreto de como inovação e inclusão podem caminhar juntas quando há vontade política e investimento adequado.
Inclusão como fundamento da economia circular brasileira
A reciclagem brasileira tem uma singularidade que poucos países possuem: uma rede capilar de trabalhadores distribuídos por todo o território nacional, capazes de recuperar materiais que sistemas automatizados dificilmente alcançariam. Desperdiçar essa estrutura em nome de soluções tecnológicas importadas seria um equívoco estratégico.
Enfim, como conclui o diretor da Ecodust Ambiental, Marcello José Abbud, a economia circular no Brasil só será viável em escala se incluir os catadores como protagonistas, e não como problema a ser resolvido. A formalização, a capacitação e o financiamento dessas cadeias são investimentos com retorno social e ambiental comprovado, e precisam ocupar o centro das políticas de resíduos nos próximos anos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

