Dados do INPE mostram o maior recuo registrado no mês de maio desde que o monitoramento existe. Mas o que está por trás desse resultado e quanto ele pode durar?
O mês de maio de 2026 entrou para a história do monitoramento ambiental brasileiro com um número que surpreendeu até os especialistas mais otimistas: o desmatamento na Amazônia Legal recuou 61,4% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe, por meio do Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real, o Deter, durante visita do presidente Lula ao Observatório Regional Amazônico da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, em Brasília, no dia 11 de junho. O que torna esse resultado ainda mais expressivo é o contexto histórico em que ele ocorre: maio marca o início da estação seca na Amazônia, período em que, historicamente, o desmatamento tende a aumentar com a entrada de maquinário nas áreas de floresta. A queda, portanto, contraria a curva esperada e reforça a tese de que as ações de fiscalização do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, estão produzindo efeito concreto. O Cerrado, outro bioma ameaçado, também apresentou recuo de 12,2% em maio. Mas o que explica esse resultado tão expressivo, e ele representa uma tendência estrutural ou um momento isolado?
O que os dados dizem sobre a queda
O Deter é o sistema que orienta as equipes do Ibama e do ICMBio nas ações de combate ao desmatamento em campo. Seus alertas não medem com precisão a área desmatada final, mas sinalizam onde estão ocorrendo supressões de vegetação, permitindo uma resposta mais ágil das forças de fiscalização. De acordo com os dados divulgados pela Agência Brasil, dos alertas registrados em maio de 2026, 37,1% estavam em áreas regularizadas, onde o desmatamento pode ocorrer dentro dos limites legais previstos pelo Código Florestal. Já 21,3% ocorreram em florestas públicas não destinadas, e 17,4% em áreas sem registro fundiário, ou seja, em territórios onde o desmate é claramente ilegal.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou ao anunciar os dados que a combinação entre embargos remotos do Ibama e presença física do ICMBio em unidades de conservação, terras indígenas e assentamentos foi determinante para o resultado. No Cerrado, o período agregado entre agosto de 2025 e maio de 2026 mostrou queda de 8,2% na área desmatada em comparação com o período anterior, totalizando 4.208 quilômetros quadrados suprimidos, dos quais 73,4% em propriedades já regularizadas. A expectativa do Ministério, segundo Capobianco, é que o ciclo anual encerrado em 31 de julho apresente o menor índice de desmatamento já registrado na Amazônia desde que a medição existe.
O que ainda preocupa e quais são os desafios
Mesmo diante de um dado histórico, a situação não está plenamente equacionada. O desmatamento ilegal, embora menor, segue presente, e o contexto político e econômico que alimenta a pressão sobre a floresta não mudou de forma estrutural. O avanço da fronteira agrícola, a especulação fundiária e as disputas por terras em regiões de transição entre Amazônia e Cerrado continuam sendo fatores de risco para os biomas brasileiros. Além disso, o próprio portal Portalcarlossouto.com.br apurou que o desmatamento ilegal ainda é utilizado como argumento pelos Estados Unidos para a imposição de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros. O Escritório do Representante Comercial dos EUA, o USTR, chegou a sugerir uma taxa punitiva de 25% sobre exportações brasileiras com base em práticas consideradas ambientalmente insustentáveis.
Capobianco rebateu a argumentação americana com os próprios dados do Inpe, sinalizando que o Brasil tem argumentos concretos para refutar acusações baseadas em dados desatualizados ou imprecisos. No entanto, a disputa mostra que o desempenho ambiental do Brasil não é apenas uma questão doméstica: ele tem repercussões diretas no comércio exterior, nas negociações do acordo entre o Mercosul e a União Europeia e na imagem do país junto a investidores internacionais comprometidos com critérios ESG. O avanço registrado em maio de 2026 é real e significativo, mas a estabilidade desse resultado dependerá da continuidade das políticas de fiscalização, do fortalecimento das estruturas do Ibama e do ICMBio e da capacidade do governo de transformar números pontuais em uma tendência duradoura. O Brasil tem a floresta mais importante do planeta. Cuidar dela com consistência é, ao mesmo tempo, uma responsabilidade ambiental e uma estratégia de Estado.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
Fontes: Agência Brasil (agenciabrasil.ebc.com.br), CartaCapital (cartacapital.com.br), portalcarlossouto.com.br, correiodobrasil.com.br

