Serviço criado em parceria com o Hospital Sírio-Libanês já soma quase 7 mil usuários cadastrados em três meses e passa a contar com reforço da AgSUS para dar conta da procura.
O crescimento das apostas esportivas e dos jogos online no Brasil trouxe um efeito colateral que o sistema público de saúde já começou a sentir na prática: o aumento de pessoas em busca de ajuda para lidar com a compulsão por bets. Criado em março deste ano pelo Ministério da Saúde, o teleatendimento oferecido pelo aplicativo Meu SUS Digital ultrapassou as estimativas iniciais logo nos primeiros meses de funcionamento e agora ganha reforço institucional. Segundo apuração da Agência Brasil, a plataforma já tem 6.912 usuários cadastrados, número que levou o governo a acionar a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do Sistema Único de Saúde, a AgSUS, para contratar empresas especializadas e ampliar a capacidade de atendimento ainda este ano.
Como funciona o atendimento pelo Meu SUS Digital
O acesso ao serviço é feito integralmente pelo celular ou computador, sem necessidade de comparecer a uma unidade de saúde para o primeiro contato. Basta baixar o aplicativo Meu SUS Digital, disponível gratuitamente para Android, iOS ou na versão web, e fazer login com a conta gov.br. Na página inicial, o usuário deve acessar a área de Miniapps e selecionar a opção voltada a problemas com jogos de apostas, conforme detalha a Agência Brasil. A partir daí, é apresentado um autoteste baseado em evidências científicas e validado por especialistas brasileiros, com perguntas pensadas para identificar sinais de risco relacionados ao comportamento de jogo.
Quem obtém resultado indicativo de risco moderado ou elevado é encaminhado automaticamente para o teleatendimento, enquanto casos considerados de menor risco recebem orientação para buscar apoio presencial em Centros de Atenção Psicossocial ou em Unidades Básicas de Saúde, segundo informações do Ministério da Saúde. As consultas por vídeo têm em torno de 45 minutos de duração e podem incluir até 13 sessões por paciente, de forma individual ou em grupo com a rede de apoio, conforme descreveu o Ministério em nota oficial. A equipe responsável é multiprofissional, formada por psicólogos e terapeutas ocupacionais, com apoio de psiquiatra quando necessário, além de articulação com a assistência social e a medicina de família para garantir a continuidade do cuidado dentro da Rede de Atenção Psicossocial.
Procura maior que o esperado leva a reforço do serviço
Quando foi lançado, em 3 de março, o teleatendimento previa atender cerca de 600 pessoas por mês, número que chegou a subir para uma faixa entre 800 e 1.000 atendimentos já nas primeiras semanas de operação, de acordo com informações divulgadas pelo Partido dos Trabalhadores com base em dados do Ministério da Saúde. Passados três meses de funcionamento, porém, a quantidade de pessoas cadastradas superou as projeções iniciais, o que levou o governo a buscar reforço estrutural por meio da AgSUS. A ideia, segundo apuração da Agência Brasil, é contratar empresas especializadas para dar suporte à operação e assim ampliar de forma sustentável a assistência gratuita oferecida a quem enfrenta esse tipo de dependência.
Esse movimento de expansão acompanha um investimento mais amplo em saúde mental dentro do SUS. De acordo com o Ministério da Saúde, os recursos destinados a essa área cresceram 70% entre 2022 e 2025, saindo de 1,7 bilhão de reais para 2,9 bilhões de reais. O próprio serviço de teleatendimento para apostas recebeu 2,5 milhões de reais em investimento inicial, viabilizado pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, o Proadi-SUS, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. A plataforma também disponibiliza a opção de autoexclusão de sites de apostas, recurso pensado para dar ao usuário uma ferramenta prática de controle enquanto segue em tratamento.
Um problema de saúde pública em crescimento
Os números que motivaram a criação do serviço ajudam a entender por que o governo decidiu investir nesse formato remoto de atendimento. Levantamento citado pelo Rádio Santana FM, com base em dados do Ministério da Saúde, mostra que o SUS registrou 6.157 atendimentos presenciais relacionados a jogos e apostas apenas em 2025, e que a procura espontânea por ajuda presencial já vinha crescendo antes mesmo do lançamento do aplicativo. A Organização Mundial da Saúde reconhece o comportamento compulsivo relacionado a apostas como transtorno mental desde a última revisão da Classificação Internacional de Doenças, a CID-11, na categoria descrita como transtorno do jogo, associada a maior risco de ansiedade, depressão e outros comportamentos compulsivos.
O impacto não se limita à saúde individual. Um estudo mencionado pelo Portal Itapipoca estima perdas econômicas e sociais ligadas às apostas online em 38,8 bilhões de reais por ano no país, valor que envolve tanto prejuízos financeiros diretos de quem aposta quanto efeitos indiretos sobre famílias e produtividade. Para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, um dos principais entraves para que a pessoa busque tratamento é o estigma. Em declaração reproduzida pela Medicina S/A durante o lançamento do serviço, o ministro afirmou que dificilmente alguém com problemas relacionados a jogos de apostas procura atendimento presencial, já que há vergonha e dificuldade de admitir o problema, o que reforça a lógica de um serviço que preserva a privacidade do paciente desde o primeiro contato.
O que a expansão do serviço sinaliza para quem precisa de ajuda
A decisão de reforçar o teleatendimento com apoio da AgSUS indica que o poder público passou a tratar a compulsão por apostas como uma demanda estrutural, e não como um problema pontual ligado ao boom recente das bets no Brasil. Para especialistas da área de saúde mental, a manutenção de um canal de acesso remoto tende a favorecer justamente o público que mais evita procurar ajuda por conta própria, o que ajuda a explicar por que a procura superou as estimativas iniciais em tão pouco tempo. Se a tendência de crescimento se confirmar nos próximos meses, é provável que o número de usuários cadastrados no serviço continue subindo, à medida que mais pessoas tomam conhecimento da ferramenta e da possibilidade de fazer o autoteste dentro do próprio aplicativo Meu SUS Digital.
Quem quiser buscar o serviço ou indicar a um familiar pode fazer isso a qualquer momento, já que o atendimento funciona também para a rede de apoio de pessoas com o problema, não apenas para quem aposta. Enquanto o governo avança na contratação de novas empresas para ampliar a estrutura, a recomendação de profissionais de saúde é que sinais como aumento progressivo do valor apostado, mentiras sobre a frequência das apostas e prejuízos financeiros recorrentes sejam tratados como alerta para buscar avaliação o quanto antes, seja pelo aplicativo, seja em uma Unidade Básica de Saúde.
Fontes consultadas: Agência Brasil (via Diário Digital): https://www.diariodigital.com.br/geral/alta-demanda-faz-sus-ampliar-teleatendimento-a-jogadores-compulsivos Ministério da Saúde: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2026/marco/ministerio-da-saude-inicia-teleatendimento-gratuito-pelo-sus-para-quem-enfrenta-problemas-com-jogos-e-apostas Agência Brasil (Radioagência Nacional): https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/saude/audio/2026-03/sus-oferece-teleatendimento-para-quem-tem-vicios-em-jogos-online Partido dos Trabalhadores (com dados do Ministério da Saúde): https://pt.org.br/para-combater-vicio-em-apostas-sus-oferece-consultas-online/ Rádio Santana FM: https://santanafm.com.br/sus-lanca-teleatendimento-gratuito-para-problemas-com-apostas/ Portal Itapipoca: https://www.portalitapipoca.com.br/saude/2026/03/03/ministerio-da-saude-lanca-teleatendimento-do-sus-para-tratar-compulsao-por-apostas-online.html Medicina S/A: https://medicinasa.com.br/teleatendimento-sus-apostas/

